Biografia sobre o ”GENESIS” no Livro ”Rock Progressivo”

A história do Genesis é muito significativa no contexto do rock progressivo, não apenas a nível internacional, mas também no Brasil. Trata-se de uma banda que conquistou bastante a simpatia dos rockeiros brasileiros, em particular a daqueles que deram mais atenção ao chamado lado pop do movimento. Por conseguinte, o conjunto vendeu muitos discos e se tornou muito popular por aqui. Tal popularidade chegou a trazê-lo para algumas apresentações em nosso território, em 1977.

A notícia mais distante, da trajetória da banda, data de 1963, quando, em setembro, Peter Gabriel (nascido em 13 de maio de 1950), e Anthony Banks (nascido em 27 de março de 1950) foram estudar em Charterhouse, uma escola pública inglesa que fica perto de Godalming, Surrey. Ali ingressaram para cursar o ginásio. Outros dois nomes da futura genesiana família chegaram a Charterhouse em setembro de 1964 e abril de 1965: foram eles, respectivamente, Mike Rutherford (nascido em 02 de outubro de 1950), e Anthony Phillips (data de nascimento ignorada).

De maneira diferente do que aconteceu com músicos ingleses como John Lennon, Paul McCartney, e Eric Clapton, esses garotos de Charterhouse não eram originários de famílias humildes, mas sim de lares abastados da pequena burguesia inglesa. Assim sendo, possuíam hábitos diferentes, tais como estudar piano clássico (caso de Anthony Banks). Banks e seu amigo Peter costumavam fugir das aulas para ouvir discos de gente como a jazzista Nina Simone, ou do cantor soul Otis Redding, isso numa loja de Godalming.

O fato daqueles adolescentes serem oriundos de pequena burguesia, aliado a determinadas atitudes que tomaram no início da carreira, foi objeto de muitas críticas negativas por parte da imprensa internacional. O escritor italiano Enrico Sisti, por exemplo, num artigo publicado numa coletânea do Genesis lançada em seu país, dizia que o percurso da banda era, ao mesmo tempo, burguês e revolucionário. Revolucionário no que se refere à música, muito bem elaborada e harmônica. Burguês com respeito à temática bíblica que subsidiou as primeiras idéias e o nome do conjunto. Na visão de Sisti, a recorrência ao misticismo é uma prerrogativa que, em geral, na cultura do século XX, se associa à cultura burguesa. Isso é discutível, mas não deixa de ter fundamento, se lembrarmos o envolvimento de certos setores da igreja por ocasião da ascensão do fascismo italiano.

Voltando a Charterhouse, os quatro músicos estavam divididos em dois grupos: Garden Wall e The Anon. Anthony Phillips (guitarra solo), e Mike Rutherford (guitarra base), mais Rob Tyrrel (bateria), Richard McPhail (vocal), e Rivers Job (baixo) formavam The Anon. Peter Gabriel (vocal) e Tony Banks (piano) mais Chris Stewart (bateria) formavam o Garden Wall. Phillips e Job já haviam tocado num grupo chamado The Spiders. Com The Anon gostavam de executar algumas músicas dos Beatles e dos Rolling Stones, mais algumas raras composições próprias.

Após um concerto escolar, em julho de 1966, Job e McPhail deixaram Charterhouse, e o Anon se tornou um trio. Pouco tempo depois, o Garden Wall se apresentava em outro concerto escolar, contando com Job no baixo, e Phillips na guitarra. Nesse concerto, para causar certo impacto, Peter Gabriel atirou sobre o público uma boa quantidade de pétalas de rosas que havia colhido pela vizinhança.

Com o término do ano de 1966, The Anon se apresentou pela última vez, no concerto de despedida do ano. Após isso, Rutherford e Phillips passaram a se concentrar em suas composições, e resolveram gravar seus primeiros “demos” (fitas de demonstração para encaminhamento às gravadoras). Tais “demos” foram feitos num estúdio caseiro de uns amigos. Para os teclados, os guitarristas convidaram Anthony Banks. Foi o próprio Anthony que persuadiu os amigos a deixarem o Peter Gabriel desempenhar nos vocais, argumentando que ele tinha melhor voz do que Phillips (com toda a razão).

Ali estava plantada a semente embrionária que traria à luz o Genesis. Há autores que afirmam que, nessa época, Peter era também o baterista do grupo, e que eles ainda mantinham o nome Garden Wall. Existem controvérsias a respeito dessa informação.

A primeira série de “demos” tinha seis músicas: “She’s Beautiful”, “That’s Me”, “Listen On 5”, “Don’t Wash Your Back”, “Patricia”, e “Try A Little Sadness” (esse último nome muito lembra uma canção de Otis Redding chamada “Try A Little Tenderness). “She’s Beautiful” era a única composição de Banks/Gabriel, e também foi somente a que reapareceu, mais tarde, no LP From Genesis To Revelation (com o título “The Serpent”).

Por intermédio de algum conhecido, tal fita chegou às mãos de um sujeito chamado Jonathan King, também ex-aluno de Charterhouse, e assistente de Edward Lewis, o presidente da Decca Records. King não deu muito crédito ao futuro comercial daqueles quatro jovens, mas resolveu investir numa segunda dose de “demos”. Regravaram “She’s Beautiful”, “Try a Little Sadness”, e acrescentaram “Where The Sour Turns To Sweet”, e “The Image Blown Out”. Com isso, Jonathan lhes ofereceu um contrato de cinco anos.

Por ironia do destino, certas coisas que acontecem neste planeta se tornam engraçadas: os pais daqueles rapazes, que provavelmente estavam bem de vida, e queriam filhos doutores, quase pegaram o King pelo pescoço por causa do contrato. Com muita insistência, chegaram, a um acordo, deixando os filhos assinarem um contrato de um ano, renovável por igual período.

Mesmo com esses problemas iniciais resolvidos, King ainda deu um certo trabalho aos músicos, pois quis uma terceira fita. Não demorou muito para Gabriel e Banks perceberem que King era um fã dos Bee Gees, e tratarem de elaborar algumas composições bem ao estilo daquela banda anglo-australiana. Uma delas foi “The Silent Sun”, que veio a se constituir no primeiro compacto do grupo (com “That’s Me” no lado B). Esse compacto foi gravado em dezembro de 1967, e lançado em 22 de fevereiro de 1968. Nesse disco, estava com eles Chris Stewart (velho colega do Garden Wall), o que reafirma as controvérsias a respeito do Peter Gabriel na bateria. Foi também nesse compacto que apareceu pela primeira vez o nome Genesis. King os batizou assim, numa pretensiosa intenção de dizer que se tratava do começo de algo novo (da Bíblia: Genesis, o começo).

Com a mesma formação, lançariam um segundo compacto, em 10 de maio de 1968, contendo as músicas “A Winter’s Tale” e “One Eyed Hound”. Apesar do entusiasmo dos membros do conjunto, esses dois compactos não deram praticamente em nada. Futuramente, seriam muito cobiçados pelos colecionadores, mas na época poucos lhes deram importância (essas quatro músicas iniciais foram incluídas num relançamento do primeiro LP do Genesis, pela série Rock Roots, na Inglaterra, em 1976).

Diante desse quadro, pouco encorajador, Banks e Gabriel acharam que talvez seria melhor partir para outros lances. Banks estava na Universidade de Essex, estudando Física, e Gabriel tinha a intenção de fazer escola de cinema. Como os colegas Rutherford e Phillips queriam seguir carreira de músicos, se comprometeram a ajudá-los por mais algum tempo, até que conseguissem outros instrumentistas.

Quanto ao King, ainda tinha uma pequena esperança no talento de seus comandados; durante o verão de 1968, levou-os ao estúdio para gravarem as treze faixas que viriam a constituir o primeiro LP do Genesis. As composições eram, na maioria, místicas, falando de coisas como a aurora do homem e sua evolução através dos tempos (sempre através de urna óptica bíblica). Quanto à parte musical, era bastante simples, com canções acompanhadas por muitos instrumentos acústicos, orquestra e alguns instrumentos eletrônicos (órgão e mellotron). Chris Stewart não estava mais; em seu lugar havia entrado o baterista John Silver.

Enquanto o disco estava sendo produzido, descobriram que havia na América um outro Genesis. Com isso, a Decca iniciou a pressionar o King para mudar o nome da banda. A primeira idéia foi trocar para Revelation, mas, para infelicidade deles, também havia outro Revelation. Assim, resolveram escrever na capa, simplesmente: From Genesis To Revelation. E no encarte interno a justificativa: “Agora somos um grupo sem nome, mas temos um disco e queremos distribuí-lo a vocês, com ou sem nome”. (Existe uma outra versão, que diz que eram Genesis na Inglaterra e Revelation na América; é incoerente com a nota do encarte).

Mas o LP também não vendeu o que se esperava, e isso foi o suficiente para fazer a transação parar por ali. A bem da verdade, aquele disco foi lançado sob uma falta de convicção muito grande. Para que o leitor tenha uma idéia, na época do lançamento, em março de 1969, cada um continuava ligado a suas atividades extra-musicais. Por outro lado, os membros do conjunto acharam que a mixagem não foi boa, e isso acabou diminuindo muito a força das composições.

Apesar de tudo, no segundo semestre de 1969 resolveram tocar a vida adiante (com a música). Para tanto, Banks se afastou da universidade por um ano (e não voltou até hoje). Em setembro de 1969, Richard McPhail reapareceu, e assumiu o papel de empresário. Através de um anúncio, no jornal Melody Maker, recrutaram o baterista John Mayhew (Silver retornou aos estudos). Mas por um bom tempo nada aconteceu, a não ser pequenas apresentações em festinhas ou em clubes.

Em março de 1970, uma nova etiqueta discográfica inglesa começava a despontar: era a Charisma Records. Uns amigos de Gabriel e Banks, do grupo Rare Bird, recomendaram ao diretor da Charisma, Tony Stratton Smith, que procurasse prestar atenção no Genesis. Stratton incumbiu seu assistente, John Anthony, de procurá-los. Anthony, que já havia realizado alguns trabalhos com o Van der Graaf Generator, ficou entusiasmado ao vê-los tocar.

A essa altura, Jonathan King e a Decca começaram a perceber que estavam vacilando, principalmente face à disposição que as etiquetas lsland, Threshold (dos Moody Blues), e a própria Charisma estavam oferecendo aos novos grupos progressivos. A Decca tentou, em vão, trazer o Genesis de volta. Mas já era tarde, a Charisma cuidou de contratá-los bem depressa. Aliás, essa não foi a primeira vez, nem a segunda, que uma coisa desse tipo aconteceu. A Decca recusou os Beatles, no início da carreira, e deixou escapar o Giles, Giles & Fripp (semente do King Crimson).

Em julho do mesmo ano, Phillips, Rutherford, Banks, Gabriel, e Mayhew terminavam de gravar seu primeiro LP pela Charisma, o “Trespass”. Anthony Phillips e John Mayhew mal acabaram de gravar o disco e se retiraram do conjunto. Quanto a Mayhew, os outros membros não gostavam dele como músico, pois era muito dependente, tinham de ensinar-lhe tudo. Phillips, por sua vez, era muito bom, mas estava muito desiludido e desgastado. Simplesmente, disse que não acreditava mais naquele tipo de vida, e que iria estudar violão clássico e orquestração (e o fez). Anos mais tarde, iniciou a lançar discos solos.

“Trespass” veio ao público em outubro de 1970. Sua capa era bem diferente do primeiro disco, trazendo como ilustração uma bela pintura do artista Paul Whitehead. Nessa época, os grupos progressivos eram os maiores responsáveis pelos “Concept Albuns”, herança direta do “Sargeant Pepper”, dos Beatles. E, nesse tipo de trabalho, a capa tem um papel fundamental (vide trabalhos contemporâneos do King Crimson, Van der Graaf e Yes, por exemplos).

A parte musical de “Trespass” era bem diferente do primeiro LP. As faixas eram mais longas, os arranjos melhor elaborados, mais eruditos. Durante o primeiro semestre de 1970, o Genesis desenvolveu algumas composições com vistas às apresentações ao vivo. Foram algumas dessas composições que vieram no primeiro LP pela Charisma. Através delas, podia-se notar que os músicos se projetavam mais, executando vários instrumentos, Peter Gabriel já aparecia tocando flauta, acordeão, e percussões. Phillips e Rutherford trabalhavam com inúmeros instrumentos de cordas, desde o cello até o dulcimer (instrumento medieval, traduzido em Português por “saltério”).

Após o lançamento do LP, precisavam de músicos para substituir os dissidentes. Através de anúncios, contrataram o baterista Phil Collins (nascido em 31 de janeiro de 1951), ex-ator e ex-integrante da banda Flaming Youth. De maneira análoga, contrataram o guitarrista Steve Hackett (nascido em 12 de fevereiro de 1950). Antes de Hackett, passaram algum tempo com um tal Mick Barnard, após um pequeno período como quarteto. Mas não deu certo, pois, de acordo com o que Banks declarou numa eventual entrevista, “Barnard ainda estava na condição em que nos encontrávamos um ano antes”. Banks também já contou que quem estava encarregado de ouvir os candidatos a guitarrista era o Mike Rutherford: – “Ele estava tão obcecado com a idéia de encontrar um substituto ao nível de Phillips, que não chegava a coisa alguma.”

Por sorte, quem conduziu os testes de Steve Hackett foram Gabriel e Banks. Não se sabe ao certo em que mês Steve entrou para a banda, sabe-se apenas que excursionou com eles durante parte do primeiro semestre de 1971. Essas excursões foram tão intensas, que só conseguiram iniciar a pensar no álbum seguinte em junho de 1971, quando Peter fraturou um tornozelo. A entrada de Hackett contribuiu para completar a dita formação clássica do Genesis. De fato, Gabriel, Banks, Rutherford, Collins e Hackett permaneceram juntos por quase seis anos.

O primeiro álbum com Hackett foi “Nursery Cryme”. Nele, o Genesis lançou mão de dois recursos que passaram à História como marcas registradas de grupos progressivos. O primeiro deles: melodrama. O segundo, mais sério e ao mesmo tempo mais questionável: misticismo e metafísica. Isso iniciou a merecer um certo espaço, pouco tempo antes, com o Van der Graaf. Quase em simultaneidade com a gravação de “Nursery Cryme”, o Van der Graaf registrava a obra mística que transformar-se-ia numa das pedras milenares do movimento progressivo: “Pawn Hearts” (vide capítulo 6).

Não se pode afirmar, categoricamente, se “Pawn Hearts” influenciou o Genesis em “Nursery Cryme”, mas a faixa principal desse último narra uma história (ou estória) de uma garota de nove anos que, simplesmente, arranca a cabeça de seu colega, de oito anos, com um martelo, num jogo de croquet. Pouco tempo depois, a garota Cynthia descobre a caixa de música de Henry, sua vítima. Ao acionar a tal caixa, o espectro (fantasma ?) de Henry aparece e envelhece progressivamente em sua frente. A movimentação atrai a atenção da enfermeira, que destrói a caixa, e conseqüentemente a imagem.

Em 1973, conversando com o jornalista Peter Frame, do Zigzag, Gabriel confessaria suas crenças metafísicas, e ainda aproveitaria para chamar a atenção para o evento que muitos se interessavam pelos estudos espirituais (entre eles: David Bowie, Robert Fripp, Peter Hammill e Jimmy Page).

Após o lançamento de Nursery Cryme (ocorrido em novembro de 1971), o Genesis voltou às excursões. Em janeiro de 1972, fez sua primeira apresentação fora do Reino Unido, em Bruxelas, Bélgica. Próximo do final do mesmo ano, lançou o LP “Foxtrot”. Foi nesse álbum que teve fim o suposto dualismo burguês/revolucionário. Na faixa “Get Them Out By Friday”, optaram pelos oprimidos, retratando a estória de uma família que estava sendo pressionada para desocupar um imóvel, para que uma suposta poderosa empresa pudesse construir um edifício com finalidades nocivas. Gabriel ia narrando paulatinamente a angústia daquelas pessoas humildes que nem sabiam para onde ir. Em “Watcher Of The Skies”, novamente, o misticismo. Um sentinela do Universo (Deus ?) resolve visitar o planeta Terra depois de uma devastadora destruição. E o que encontra? Apenas répteis e uma paisagem desoladora.

Após o lançamento de “Foxtrot”, o Genesis inicia uma nova série de excursões. Nessa série, Gabriel lançou mão de um recurso que tirou o conjunto, defintivamente, do anonimato: o travestimento (entenda-se aqui esse termo no sentido artístico, e não obsceno). Ele achava que deveria viver os personagens de sua música, tanto quanto possível. Ao mesmo tempo, investia profundamente numa nova teatralização do rock.

A fama e a carreira do Genesis cresciam vertiginosamente. Em 11 de dezembro de 1972, fizeram sua apresentação de estréia em solo norte-americano, na Brandeis University. Dois dias depois, foi no Philarmonic Hall, em Nova Iorque. O maior fruto dessas excursões americanas foi o álbum “Live” (lançado em julho de 1973). Inicialmente, foi gravado como um especial para uma rádio norte-americana. Depois de mixado, Stratton, que na época também empresariava o conjunto, os persuadiu a lançar em disco.

Em outubro de 1973, foi a vez de “Selling England By The Pound”, questionando as tradições inglesas, e os meios de sustentação do Império Britânico. Em novembro de 1974, seria a vez do álbum duplo “The Lamb Lies Down On Broadway”, trazendo a estória de Rael, um portorriquenho em Nova Iorque que vive atormentado entre o sonho americano e a opressão. Foi com esse álbum que as coisas começaram a se complicar entre Gabriel e os demais membros. Eles já não apreciavam aquela época do teatro, que monopolizara demais a imagem do grupo sobre Peter. Em “The Lamb”, foi ele quem distribuiu a maior parte das coordenadas. Os outros membros contaram em entrevistas que, nessa época, ele estava passando da conta. Tudo começou quando William Friedkin, diretor do filme “O Exorcista” o convidou para planejarem algum evento juntos. Peter disse, então, que iria deixar o conjunto; mas voltou atrás, alguns dias depois. E começou a escrever as letras do álbum. Enquanto escrevia as letras, os demais membros desenvolviam a parte musical, num compartimento separado de uma casa onde estavam trabalhando.

O trabalho terminou por ser lançado em novembro de 1974, ocasião em que iniciaram uma excursão monstruosa. Foi durante essa excursão, em maio de 1975, que Peter Gabriel resolveu, definitivamente, deixar o conjunto. Sua última apresentação com a banda se deu em Santa Ettiene, na França. Durante algum tempo, houve uma certa falta de convicção por parte dos fãs e da imprensa a respeito desse desligamento. Mas, por volta de agosto/setembro de 1975, a notícia oficial já rodava o mundo. Todos consideravam uma loucura. Imaginem: seria como o Mick Jagger deixando os Rolling Stones, ou o lan Anderson o Jethro Tull.

Peter Gabriel nunca deixou muito claro os motivos que o levaram a deixar o Genesis. O fato é que ele partiu para uma brilhante carreira solo, e teve a oportunidade de trabalhar com muitos músicos brilhantes (Robert Fripp, Larry Fast, Tony Levin, e muitos outros). Seus álbuns individuais têm mostrado que tinha intenções de fazer algo muito diferente do que fazia no Genesis. Numa faixa de seu primeiro LP, dá uma dica maldosa: – “Excuse me, please, I’m not the man I used to be, someone else cretine, I want to be alone” (“desculpem-me, por favor, não sou mais o homem que eu era, um simples cretino, quero ficar sozinho”).
E O GENESIS ?


Bem, no começo, sentiram uma enorme insegurança, pois primeiro o Gabriel roubou o espetáculo para si, depois se retirou. A primeira atitude deles foi procurar um vocalista substituto. Após inúteis tentativas, chegaram à conclusão que seria melhor procurar um baterista para as excursões, enquanto Phil Collins assumia o vocal principal.

Como um quarteto, gravaram o LP “A Trick Of The Tail”, que veio a público em fevereiro de 1976. Entre a saída de Peter e esse LP, Steve Hackett lançou seu primeiro LP solo, em outubro de 1975.

O baterista convidado para a excursão, que se iniciaria em março de 1976, foi Bill Bruford (ex-King Crimson). Bill era antigo amigo (e guru) de Collins, e estava sem trabalho fixo, pois o King Crimson havia encerrado suas atividades cerca de dois anos antes. Bruford ficou com eles até novembro do mesmo ano, quando partiu para integrar o grupo UK, deixando o posto para Chester Thompson (ex-Frank Zappa).

Por paradoxal que possa parecer, enquanto o Genesis contratava bateristas substitutos para Collins, esse, por sua vez, atuava num outro grupo, o Brand X.

Apesar do “Trick Of The Tail” não ser uma maravilha, os fãs do grupo não se preocuparam muito com sua qualidade, adquiriram-no em massa. Em abril de 1976, partiram para a América do Norte, onde os sete mil bilhetes do primeiro concerto, na Califórnia, foram vendidos em dois dias, um mês antes do concerto. E seus compradores não ficaram decepcionados. O show se abriu com “Dance On A Volcano”, primeira faixa do novo disco. Phil Collins não fez teatro, não usou máscaras, mas veio com um novo truque: contar historietas. “Romeu e Julieta”, versão Collins, são um par de namorados que vão a um drive-in. Isso é argumento para a entrada da canção “The Cinema Show”.

Em dezembro de 1976, após a saída de Bruford, o quarteto lançou o LP “Wind And Wuthering”. Durante o primeiro semestre de 1977, partiram para outra excursão gigantesca. E foi nessa excursão que o Brasil entrou para o roteiro. Em 1974, Steve Hackett já havia estado por aqui; foi ele quem convenceu os amigos Banks, Rutherford, e Stratton a voltarem em 1976 para os primeiros acertos das apresentações. Em maio de 1977, o Genesis desembarcava por aqui para uma boa dúzia de concertos em Porto Alegre, Rio de Janeiro, e São Paulo.

Ao retornarem para a Inglaterra, fizeram três apresentações em Earls Court, as últimas com Steve Hackett. Ele seguiu uma carreira solo modesta e produtiva. E então o Genesis virou um trio: Collins, Rutherford, e Banks. Continuaram a gravar humildes composições, que nada mais fariam do que manter acesa uma pequena chama representativa de um passado glorioso. Continuaram também a excursionar com músicos convidados. Além de Thompson, a banda teria outro norte-americano: Daryl Stuermer (ex-jean Luc Ponty Band).

Em setembro de 1982, o Genesis anunciou um fato que, para muitos, jamais aconteceria: a banda apresentar-se-ia ao vivo com Peter Gabriel. Isso realmente aconteceu, em 02 de outubro do mesmo ano, no auditório Milton Keynes, na Inglaterra. Mas Peter deixou bem claro que a finalidade era a de arrecadar fundos para cobrirem o prejuízo que tivera, em julho, quando organizou um festival para divulgar a arte do terceiro mundo, em Londres. A apresentação não foi das melhores, mas os fãs se deleitaram. Depois disso, cada qual seguiu seu rumo.

DISCOGRAFIA


1) GENESIS: From Genesis To Revelation (l969; no Brasil com o
título In The Beggining), Trespass (l979, Br), Nursery Cryme (l97l,
Br), Foxtrot (l972, Br), Live (l973, Br), Selling England By The
Pound (l973, Br), The Lamb Lies Down On Broadway (l974, duplo,
Br), A Trick Of The Tail (l976, Br), Rock Roots (l976, coletânea
que reúne todas as faixas do primeiro LP, mais as dos dois primei-
ros compactos lançados na Inglaterra; Br), Wind And Wuthering
(l977, Br), Seconds Out (l977, duplo ao vivo, Br), And Then There
Were Three (l978, Br), Duke (l980, Br), Abacab (l981, Br) Three
Sides Live (l982, duplo ao vivo, contendo um lado com músicas
de estúdio, em países diferentes da Inglaterra: Br), Genesis (l983,
Br), Invisible Touch (1986), We Can't Dance (1991), The Way We Walk
Vol. 1: The Shorts (1992), The Way We Walk Vol. 2: The Longs (1993).
2) PETER GABRIEL: I (l977, Br), II (l978, Br), III (l980, Br), IV
(l982, Br), Plays Live (l983, duplo ao vivo; Br).
3) PHIL COLLINS- Face Value (l981, Br), Hello I Must Be Going
1982, Br).
4) ANTHONY BANKS: A Curious Feeling (l979, Br), The Fugitive
(l983), A Wicked Lady (l983, trilha sonora).
5) MIKE RUTHERFORD: Smallcreeps Day (l980, Br), Acting Very
Strange (l982, Br).
6) STEVE HACKETT: Voyage Of Acolyte (l975, Br) Please Don't
Touch (l977, Br), Spectral Mornings (l979), Defector (l980, Br),
Cured (l981), Highly Strung (l983, Br), Bay Of Kings (l984, Br).
7) ANTHONY PHILLIPS: The Geese And The Ghost (l977), Wise
After The Event (l978), Sides (l978), Private Parts And Pieces (A
Collection Of Guitar And Piano Solos) (l979), Private Parts And
Pieces II (Back To The Pavilion) (l980), 1984 (l981), Private Parts
And Pleces III (Antiques) (l982), Invisible Man (l984).
8) BRAND X COM PHIL COLLINS (menos o LP Masques): Unortho-
dox Behavior (l976), Moroccan Roll (l977), Livestock (l977), Mas-
ques (l978), Product (l979, Br), Do They Hurt (l980), Is There
Anything About (l982, Br).
9) TRILHA SONORA DE FILME, com faixas inéditas de Peter Gabriel
e Phil Collins, entre outros: Against All Odds (l984, Br).

POST SCRIPTUM


Vale deixar aqui registrados dados referentes á passagem de genesianos pelo Brasil. O primeiro deles diz respeito ao Peter Gabriel, que desembarcou no Rio de Janeiro, em 16 de maio de 1983. Naquela ocasião, o cantor disse que estaria disposto a receber, no máximo, uns dois repórteres. Assim, tentei, em nome da revista Somtrês, chegar até ele. Mas, a assessoria de imprensa da Polygram, no Rio de Janeiro, não facilitou as coisas. Pelo que constatei em publicações, os dois repórteres foram a Ana Maria Bahiana (de O Globo), e alguém da Manchete. Além disso, Gabriel teve uma conversa com o Caetano Veloso, por solicitação do inglês.

O segundo é o guitarrista Steve Hackett, que já esteve aqui por muitas vezes (há quem afirme que possui um apartamento no Rio de Janeiro). Hackett chegou a contribuir em gravações do cantor Ritchie. Fora isso, seu LP “Bay Of Kings” é uma das homenagens às praias brasileiras (Bay Of Kings quer dizer Baía dos Reis, ou Angra dos Reis).

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